Entrevista com Suzana Herculano-Houzel

Suzana

 

Amigos, tempos atrás tive a honra de conversar com Suzana Herculano-Houzel, neurocientista desde 1999, quando começou a fazer divulgação científica e, de acordo com sua descrição em seu blog A Neurocientista de Plantão “criou o hábito de pensar no lado ‘cerebral’ de tudo o que acontece ao seu redor”. Em 2006, começou a escrever uma coluna para o caderno Equilíbrio do jornal Folha de São Paulo, teve um quadro no Fantástico, escreveu cinco livros e lançou recentemente – em inglês: The Human Advantage.

Naquela época a Suzana tinha sido notícia porque resolvera jogar a toalha, deixar o Brasil e fazer ciência onde há apoio verdadeiro. Mas ainda tenho esperança que a coisa reverta lá adiante e ela volte, e o Brasil deixe de perder seus talentos para o exterior.

Mas o foco do blog é o inglês, e a Suzana o tem fluente – como podem ver na sua palestra no TED em 2013 What’s So Special About The Human Brain? – e então batemos um papo sobre como ela começou a estudar inglês e a importância desse idioma para quem aspira seguir a carreira científica.

 

Quando foi que você começou a estudar inglês?

Quando eu era criança, ainda, em casa, com a minha mãe. Depois estudei num curso que privilegiava a conversação. Tentei um outro, que não tinha essa característica, algumas vezes quando minha turma do primeiro fechava, mas eu sempre voltava para ele: no que não privilegiava a conversação, claro, ninguém sabia falar. Ao mesmo tempo, lia avidamente em inglês – Agatha Christie era minha leitura favorita, então meu vocabulário incluía daggers, poisons…


Legal, sua mãe era professora de inglês ou dominava o o idioma e te ajudava?

Não, ela só conhecia o suficiente para nos ensinar o básico, e a gente queria aprender. Acho que na época o curso não aceitava crianças, ou não tinha turma especial. Tinha turmas de adolescentes, mas elas iam fechando, então nessa eu me formei depois de estudar em várias turmas de adultos.


Depois de concluir o curso aos 14 anos, você chegou a 
fazer algum intercâmbio?

Não, nunca, e na época não tinha tv a cabo. Eu via filmes alugados. Quando eu cheguei nos EUA pela primeira vez, liguei a tv e vi seriados (sem legenda, claro – lembro do Cheers) fiquei besta olhando praquilo e pensando “eu sei que conheço todas as palavras, mas não estou entendendo nada!”

Na tua palestra no TED, o teu inglês é muito bom. Não é regra, mas imaginei que tivesses morado fora.

Eu morei fora, mas só depois, pra pós-graduação, não foi intercâmbio. A exposição a “inglês de verdade” foi fundamental.


E morou por quanto tempo?

Morei 3 anos nos EUA (em Cleveland, onde NINGUÉM falava português, o que foi fundamental), depois 4 na Alemanha, onde quase todos no Instituto falavam comigo em inglês.


Isso foi uma imersão e tanto!

Foi sim. O melhor elogio que meu inglês recebeu foi no começo das aulas da pós-graduação, quando um americano veio me dizer “eu não consigo situar o seu sotaque – de qual ESTADO você é?”  risos


Esse é um sinal de proficiência!

A proficiência, mesmo com sotaque, é fundamental. Eu não tenho a menor dificuldade em dizer o que quero. Isso é crítico para qualquer profissão, mas fundamental para cientistas. A gente tem que ser capaz de dizer e-xa-ta-men-te o que quer, com as nuances corretas


Vamos falar na tua área – ciência e pesquisa. Qual a 
importância de dominar o inglês no que vc faz? Vc acha que isso faz muita diferença? A Suzana sem inglês seria a Suzana de hoje?

Essencial e obrigatório. Alunos de iniciação científica precisam dominar ao menos a leitura do inglês para entrar no laboratório, e de preferência saber falar, porque temos cada vez mais estrangeiros no laboratório. Mas, mesmo antes disso, sem saber falar e escrever inglês
não dá para ser cientista. A base é a comunicação, a troca de descobertas e conhecimentos. A língua universal, no momento, é o inglês. Já foi o latim, já foi o alemão, mas agora é o inglês. Eu não teria estudado fora se não dominasse esse idioma, não publicaria bons artigos em inglês se não dominasse a língua eu mesma. E certamente eu não seria convidada para dar palestras no estrangeiro (muito menos no TED) se não tivesse esse domínio. Poder conversar socialmente com outros pesquisadores também é fundamental. Por isso não basta o conhecimento operacional suficiente só para decorar uma palestra e apresentá-la, é preciso conseguir conversar normalmente com outros cientistas após palestras e na mesa de um bar.

Sim, a questão da socialização e do networking. Sabe-se que há falta de profissionais com o domínio no inglês no mundo dos negócios aqui no Brasil. Na tua área ainda se vê essa carência?

Sim. Inglês instrumental é pré-requisito para fazer doutorado, mas são poucos os pesquisadores com inglês realmente fluente. Em geral, são os que estudaram fora.


A que você acha que se deve essa falta de consciência, da parte do brasileiro, para arregaçar as mangas e estudar inglês?

Acho que muitos estudam o suficiente para ter noções básicas, ou para conversar com turistas. Ganhar proficiência de verdade  exige exposição, necessidade real de usar a língua. Eu mesma conheço a diferença entre as línguas que falo. Inglês e francês são absolutamente fluentes porque eu falei diariamente por vários anos. Alemão é funcional, e eu entendo bastante bem, porque não precisei tanto assim. Embora morasse na Alemanha, as pessoas com quem eu conversava falavam inglês. E meu espanhol… digamos que melhora a cada viagem em que eu preciso dele!


Você tem filhos? Se sim, já os colocou num curso de inglês desde cedo?

Sim, os dois estudam no mesmo curso que eu me formei desde a idade em que ele aceita crianças. Os dois são agora perfeitamente fluentes, porque o padrasto é americano e eles falam inglês em casa.


Puxa, que ótimo pra eles ter essa imersão em inglês em casa!

É, um deles pulou do Kids pro book 8 porque estava ficando entediado na sala, fez a entrevista e o professor aprovou


E sobre os teus projetos atuais, algum livro novo no horizonte?

Sim, acabei de entregar um livro novo pra MIT Press. Em inglês! Vai se chamar The Human Advantage e é sobre meu próprio trabalho. O original é em inglês mesmo.

E não vai sair versão em português?

Vai, um dia – os direitos em português são meus, mas ainda não tenho editora para ele.

Que dica tu darias pros estudantes da tua área quanto à importância do inglês?

Minha dica é procurarem se expor: lerem livros, verem filmes com legenda em inglês, viajarem com grupos de estrangeiros (NADA de brasileiros no grupo!). Inglês é inegavelmente a linguagem universal de hoje, e para viver bem inserido em um mundo globalizado, há que se dominar o inglês. E quanto melhor a gente fala, melhor é aceito como cidadão do mundo, sem fronteiras mesmo.

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